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A história da vida intelectual e
artística das sociedades européias está relacionada
com a história das transformações da função
do sistema de produção de bens
simbólicos e da própria estrutura destes bens. Ao longo
destas transformações, formou-se um campo intelectual e
artístico, que almejava a autonomização progressiva
do sistema de relações de produção, circulação
e consumo de bens simbólicos.
A lógica do processo de autonomização
A vida intelectual e artística permaneceu durante toda a Idade
Média e Renascimento,
sob a tutela da aristocracia e da Igreja, atendendo às suas demandas
éticas e estéticas. A libertação progressiva,
tanto econômica como social, deste comando, ou seja, o processo
de autonomização da produção intelectual e
artística é correlato à constituição
de uma categoria socialmente distinta de artistas ou de intelectuais profissionais,
cada vez mais inclinados a levar em conta exclusivamente às regras
firmadas pela tradição herdada de seus predecessores, e
cada vez mais propensos a liberar sua produção e seus produtos
de toda e qualquer dependência social, seja das censuras morais
e programas estéticos de uma Igreja empenhada em proselitismo,
seja dos controles acadêmicos e das encomendas de um poder político
propenso a tomar a arte como um instrumento de propaganda.
A constituição da arte enquanto tal é paralela
à transformação da relação que os artistas
mantém com os não-artistas e, por esta via, com os demais
artistas. O que resulta em uma nova definição da função
do artista e de sua arte. Tal processo tem início na Florença
do século XV, com a afirmação de uma legitimidade
propriamente artística, que concede ao artista o direito de legislar
com exclusividade em seu próprio campo: o campo da forma e do estilo.
O movimento do campo artístico em direção à
autonomia ocorreu em ritmos diferentes segundo as sociedades e esferas
da vida artística, mas acelerou-se consideravelmente com a Revolução
Industrial e com a reação romântica ligada, de maneira
mais ou menos direta conforme as nações, a uma secessão
dos intelectuais e artistas que não passa do reverso de uma exclusão
e até mesmo de uma relegação. O desenvolvimento do
sistema de produção de bens simbólicos é paralelo
a um processo de diferenciação, cujo princípio reside
na diversidade dos públicos aos quais as diferentes categorias
de produtores destinam seus produtos e cujas condições de
possibilidade residem na própria natureza dos bens simbólicos.
Estes mesmos bens são concomitantemente valorizados como mercadoria
e carregados de significações e tanto o caráter mercantil
quanto cultural da obra de arte subsistem relativamente independentes.
No momento em que se constitui um mercado da obra de arte, escritores
e artistas tem a possibilidade de afirmar a irredutibilidade da obra ao
estatuto de simples mercadoria como também a singularidade da condição
intelectual e artística. Segundo o autor, a constituição
da obra de arte como mercadoria e a aparição de uma categoria
particular de produtores de bens simbólicos destinados ao mercado,
criam-se condições para o surgimento de uma teoria pura
da arte. Esta teoria da arte enquanto tal instaura uma dissociação
entre a arte como simples mercadoria e a arte como pura significação.
Toda essa conjuntura leva a uma ruptura dos vínculos de dependência
dos artistas em relação ao patrão ou a um mecenas,
propiciando ao escritor e ao artista uma liberdade que logo se revela
formal, sendo apenas a condição de sua submissão
às leis do mercado de bens simbólicos.
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